BARKLEY, Russell A. Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade: Manual para
Diagnóstico e Tratamento. 3 ed. Artmed: Porto Alegre, 2008.
Resumo parcial do Capítulo 7: Uma
teoria para o TDAH (p. 307 a 330)
O modelo de Barkley para explicar o TDAH procura relacionar as duas categorias de déficits comportamentais (desatenção e hiperatividade/implulsividade) entre si e explorar como estas dimensões se ligam ao desenvolvimento das funções executivas ou metacognitivas. Em linhas gerais, este modelo procura mostrar como problemas com a inibição comportamental prejudicam:
1. a internalização ou privatização do comportamento público;
2. a realização efetiva de quatro Funções Executivas (atos privados de auto-regulação)
A NECESSIDADE DE UMA TEORIA MAIS
ADEQUADA PARA O TDAH
Até
meados da década de 90 poucas pesquisas procuravam explicar a natureza do TDAH:
Ø Herbert Quay (1988a,1988b,1997): a
impulsividade surge da atividade reduzida no sistema de inibição comportamental
do cérebro, menos sensível aos sinais de punição condicionada que têm efeito
inibitório sobre o comportamento. O modelo prevê a resposta dos indivíduos com
TDAH à gratificação e punição, mas não explica os déficits executivos.
Ø Sergeant e van der Meere (1988): modelo energético; a desatenção e a
impulsividade resultam de níveis relativamente baixos de excitação e da
dificuldade em ativar recursos energéticos cognitivos para a realização de tarefas.
Não existe menção à autorregulação e ao funcionamento executivo.
Ø Schachar, Tannock e Logan (1993): modelo da corrida; o ambiente produz
estímulos que iniciam tanto a ativação quanto a inibição de respostas; o TDAH
estaria relacionado a uma inibição mais lenta e a uma incapacidade de
desconectar ou mudar determinadas respostas; a ativação ganha a corrida por
chegar primeiro ao sistema de controle motor. Não há discussão sobre os
déficits cognitivos associados ao TDAH (fluência verbal, reprodução do tempo,
linguagem internalizada retardada, planejamento, etc.).
Ø Edward Sonuga-Barke (2002,1992): a
impulsividade está relacionada a uma aversão a atrasos ou esperas. Não aborda
os déficits executivos.
Estes
modelos podem ser considerados complementares e não serão questionados. O que se pretende é construir uma narrativa
unificadora sobre os vários déficits associados ao transtorno a partir da
premissa indicada por estes modelos: o TDAH como um retardo evolutivo em
processos relacionados à inibição da resposta.
Diversas
pesquisas (1997a, 1997b) mostram que a inibição e as funções executivas são
mediadas pelas regiões pré-frontais do cérebro, sofrendo perturbações quando
ocorrem lesões nessas regiões.
A
inibição comportamental é o primeiro componente do modelo e a base para os outros.
A inibição permite, internaliza, garante e protege de interferência as quatro
funções executivas, aqui definidas como: memória de trabalho não verbal,
memória de trabalho verbal, regulação do afeto e reconstituição (planejamento e
generatividade). As funções executivas possibilitam que o controle do
comportamento seja transferido do exterior (ambiente imediato) para o interior
do indivíduo (representação de informações), por meio de sua influência sobre o
controle motor.
INIBIÇÃO COMPORTAMENTAL
A
inibição comportamental se refere a três processos inter-relacionados:
1)
inibição da resposta predominante a um evento:
resposta para a qual existe um reforço imediato, positivo ou negativo; a
perspectiva de um futuro potencialmente vantajoso não terá chance de afetar o
comportamento imediato se o indivíduo não consegue inibir a reação ao momento;
2)
interrupção de uma reação ou padrão de reação em
andamento; exige um grau de automonitoramento e consciência das respostas recém-passadas
e seus resultados; envolve a memória de trabalho não verbal;
3)
controle de interferências, no período de latência,
para que as respostas autodirigidas ocorram; este controle é considerado por
alguns teóricos como parte inerente da memória de trabalho.
Auto-regulação:
resposta do indivíduo que muda o seu próprio comportamento, de maneira a
alterar a probabilidade de uma consequência posterior. É uma ação que implica
uma preferência por gratificações retardadas maiores do que por gratificações
imediatas menores.
Para
que haja autocontrole (ou auto-regulação) deve haver memória de trabalho: uma
faculdade mental que permita unir as respostas comportamentais do indivíduo e
suas consequências mesmo com grandes intervalos de tempo entre elas; isso exige
um sentido de tempo, a capacidade de conjecturar sobre o futuro a partir de
experiências passadas e de utilizar esses elementos para organizar e executar
comportamentos.
AS FUNÇÕES EXECUTIVAS
Funções
executivas são ações autodirigidas, coexistentes e interativas, usadas para a
auto-regulação. A hipótese que fundamenta esta teoria para o TDAH é estas
funções representam formas privadas e encobertas de comportamento que, em um
dado momento do desenvolvimento infantil e da evolução humana foram
comportamentos abertos:
1)
memória de trabalho não verbal: privatização das
atividades sensório-motoras;
2)
memória de trabalho verbal: privatização da fala;
3) regulação emocional: privatização do comportamento
emocional e de seus aspectos motivacionais;
4)
planejamento, generatividade: privatização do jogo.
A
privatização do comportamento leva à internalização de um sentido consciente de
tempo, que é então aplicado à organização do comportamento em antecipação a
mudanças no ambiente.
É provável que a inibição
comportamental auxilie este processo de supressão das ações autodirigidas
observáveis que vão dar origem às funções executivas (internalização do
comportamento).
A
inibição comportamental e as quatro funções executivas que ela sustenta
influenciam o sistema motor, contrapondo-se ao seu controle total pelo ambiente
imediato ao possibilitar que o comportamento seja regulado a partir de
informações internas, da noção de mudança temporal, da consideração de um
futuro provável.
Desta
forma, graças à capacidade sintética das funções executivas, tornam-se
possíveis diversas respostas e sequências motoras novas, complexas e
abertamente observáveis, de modo
direcionado para alcançar determinados objetivos.
À
medida em que as funções executivas se desenvolvem na criança, são observadas
mudanças na orientação e controle do seu comportamento (até o amadurecimento do
cérebro, por volta dos 30 anos):
eventos puramente externos -> formas
internas de informação
outras pessoas -> autocontrole
eventos do momento -> eventos
do futuro
consequências imediatas e menores
->
consequências posteriores maiores
Refere-se
à capacidade de representação interna das informações que serão usadas para controlar
uma ação subsequente. O que é re-percebido não é apenas algum evento passado ou
suas representações sensoriais, mas todas as contingências comportamentais
relacionadas (evento, resposta e resultado).
Provavelmente
essa habilidade executiva é responsável tanto pela capacidade que os indivíduos
têm de imitar sequências complexas de comportamento de outras pessoas quanto
pela aprendizagem vicária (fazer o oposto de algo que se mostrou ineficiente ou
que resultou em punições).
A
capacidade de reativar imagens e sons do passado e de prolongar a sua
existência na mente durante o período de latência a uma resposta é a base para
a percepção tardia: a história pertinente do indivíduo é trazida ao
presente a fim de ajudá-lo a selecionar a melhor resposta e guiar seu
comportamento. Mas, para a percepção tardia é necessário um atraso na
resposta, uma capacidade de parar e pensar, que está comprometida na
criança com TDAH.
Deve
haver uma sintaxe para a recordação e representação contínua de eventos na
memória de trabalho. Para a recordação do passado, é importante a capacidade de
manter a sequência temporal dos eventos em ordem correta, de modo a orientar a
sequência correta de respostas.
A
recordação do passado permite a previsão de um futuro hipotético que atua para
preparar ou ativar um conjunto de respostas motoras direcionadas para aquele
futuro numa postura antecipatória.
O
feedback negativo (informações sobre erros) indica uma discrepância
entre a situação externa e o estado de coisas representado internamente, bem
como a inadequação dos planos para alcançar o objetivo. Dessa forma, as
consequências da auto-regulação efetiva serão a sensibilidade a erros e a
flexibilidade das respostas comportamentais.
O
referenciamento do passado a fim de informar e regular o seu comportamento
presente e direcioná-lo para ao futuro que deseja provavelmente contribuem para
a auto-consciência.
A
retenção de uma sequência de eventos na memória de trabalho e a comparação dos
eventos na sequência parecem proporcionar a base para o sentido de tempo e de
duração temporal. O processamento de eventos em uma sequência exige uma forma
de atenção a informações temporais maior e uma atenção informações espaciais
menor, o que sugere que a construção do
sentido do tempo exija a proteção de interferências que a inibição
propicia.
A
percepção tardia, a previsão e o controle do tempo criam uma janela temporal
(presente-passado-futuro) que vai se alargando ao longo do desenvolvimento e
podem fundamentar o desenvolvimento de uma preferência maior por gratificações
retardadas ao invés de imediatas.
O
altruísmo social deve estar associado à maturidade temporal: a disposição de compartilhar
e cooperar não faz sentido se tudo o que a pessoa consegue compreender no
momento é a perda de suas posses. Na cooperação (ou altruísmo egoísta)
existe a aceitação de que o compartilhamento e a cooperação social são uma
forma de apólice contra as excentricidades dos recursos futuros.
[* Ver série da BBC sobre “A vida
secreta dos bebês”, que apresenta a cooperação como uma característica humana
inata. Na série é mostrado um experimento em que bebês compartilham prêmios que
são distribuídos de modo desigual.]
Se
a representação mental de eventos passados na memória de trabalho dá início e
orienta as respostas motoras associadas a esses eventos, tais representações
mentais assumem o poder de regras não verbais que regem o comportamento.
Resumindo,
a memória de trabalho não verbal provavelmente abre caminho para: imaginação
visual, percepção tardia, previsão, prontidão para agir, controle do tempo,
imitação, aprendizagem vicária e
reciprocidade social (sendo que esta deve vir em primeiro lugar, pelo seu papel
crucial para a sobrevivência do grupo humano).
Luria
(1961), Vygotsky (1967), Diaz e Berk (1992) indicam que a influência da fala
privada sobre o autocontrole pode ser recíproca: o controle inibitório
contribui para a internalização da fala, que, por sua vez, contribui para um
autodomínio e autonomia ainda maiores. Ainda assim, atribui-se a primazia neste
processo à inibição comportamental (motora). Acredita-se que a fala
autodirigida proporcione um meio de reflexão e descrição pelo qual o indivíduo
rotula, descreve e contempla verbalmente a natureza de um evento antes de
responder a ele. Ela também propicia uma forma de autoquestionamento por meio
da linguagem, criando uma fonte para a capacidade de resolução de problemas e
de formular regras e planos.
Finalmente,
podem ser geradas regras sobre regras, em um sistema hierárquico (≈ conceito de
meta-cognição da Psicologia do Desenvolvimento).
A
interação entre as memórias de trabalho verbal e não verbal pode contribuir
para a capacidade de obedecer posteriormente a uma regra do momento, para a
compreensão da leitura e para o raciocínio moral.
A
capacidade de manifestar emoção ou motivação privadamente alimenta a ação
dirigida para alcançar objetivos na ausência de gratificações externas.
A imaginação visual e a fala privatizada
produzem não apenas imagens e verbalizações, mas também cargas emocionais
privadas. A inibição das respostas predominantes permite a auto-regulação por
comportamentos auto-dirigidos gerados
internamente e se revela capaz de modificar tanto a resposta ao evento quanto a
carga emocional originalmente a ele associada. A partir deste mecanismo o
sujeito pode desenvolver a objetividade e a capacidade de considerar
a perspectiva do outro ao determinar a resposta possível a um evento.
A
variedade de emoções humanas pode ser reduzida a uma grade com duas
dimensões, a motivação e a excitação
(Lang, 1995). A auto-regulação emocional traz consigo a capacidade de controlar
e induzir estados de motivação, impulso e excitação em favor do comportamento
propositado.
PLANEJAMENTO OU RECONSTITUIÇÃO
Duas
importantes atividades estão inter-relacionadas no processo de planejamento ou
reconstituição:
1. análise: capacidade de separar as unidades de
sequências de seu repertório comportamental passado;
2. síntese: recombinação das unidades comportamentais
para criar novas cadeias e hierarquias de respostas.
Essa
capacidade confere um grande poder inventivo ou generativo ao comportamento. A
fluência verbal é uma manifestação dessa função reconstitutiva, assim como a
fluência não-verbal ou comportamental (fluência motora, escrita, musical,
vocal). A função reconstitutiva contribui para a flexibilidade e criatividade
comportamentais voltadas para objetivos: a capacidade de combinar diversas
respostas potenciais para a resolução de um problema ou a realização de um
objetivo futuro. Essas novas combinações de respostas são simulações comportamentais
que podem ser construídas e testadas de forma encoberta, antes que uma seja
selecionada para ser executada; essa é uma boa definição de planejamento.
Existe uma sintaxe para combinar as unidades de comportamento em sequências
adequadas e potencialmente proveitosas; ela tem relação com aspectos de
causalidade ou contingências do mundo externo com os quais o indivíduo se
deparou anteriormente. A reconstituição pode ser muito semelhante nos
domínios verbais e não verbais, operando como um processo relativamente
aleatório de ensaio e erro, segundo a lógica de um darwinismo ideacional.
CONTROLE/FLUÊNCIA/SINTAXE MOTORES
Como
resultado da regulação interna do comportamento, os estímulos sensoriais e
comportamentos motores que não estão relacionados com o objetivo em questão,
assim, como as estruturas comportamentais internas, são inibidos não apenas
durante a operação das funções executivas, mas também durante execução das
respostas voltadas para os objetivos. O recrutamento da motivação a serviço do
comportamento propositado, quando combinado com a memória de trabalho e o
controle de interferências, conduz o comportamento a seu destino pretendido.
A
pobre capacidade atencional envolvida no TDAH pode ser compreendida como
resultado da interação do módulo inibitório com as funções executivas que
possibilitam o controle do comportamento por meio de informações representadas
internamente.
O
controle de interferências parece ser particularmente crítico para a
persistência do comportamento voltado para objetivos (atenção auto-sustentada).
Quando respostas que estão sob controle e orientação de informações internas
tiverem que ser mantidas por períodos longos, o controle inibitório do
indivíduo deve atuar para que ele não
responda a distrações internas ou externas. O indivíduo deve formular e ter em
mente o objetivo da tarefa e seu plano para alcançá-lo, a fim de que sirva como
modelo para construir as estruturas comportamentais necessárias para essa
finalidade. O indivíduo também deve incitar, manter e renovar as fontes
internas de motivação que sustentam o comportamento rumo ao objetivo, na
ausência de fontes externas de reforço ou motivação.
Existem
dois tipos de atenção sustentada: aquela que é mantida pelo reforço imediato e
é orientadas por fatores externos (ex.: videogames) e a persistência voltada
para objetivos, que é orientada internamente. Apenas esta última é prejudicada
no TDAH.
Os
estudos de neuroimagem e outros estudos neuropsicológicos mostram que a região
pré-frontal direita está provavelmente envolvida na realização de tarefas que
envolvem a persistência orientada por fatores internos. Algumas pesquisas
mostram que esta região é menor em indivíduos com TDAH (Castellanos et al.,
1996; Filipek et al., 1997), talvez explicando porque pessoas com o
transtorno têm dificuldade com a persistência
voltada para objetivos.

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